Não quero parecer repetitiva. Sei que no post anterior falei sobre Clarice Lispector. É que quem admira a escritora não se cansa de voltar a ela várias e várias vezes. Justificativa dada, vamos ao que interessa. Estava pensando no conceito de blog, tema da aula anterior. Eis que vi em Clarice uma blogueira em potencial. Isso, se levarmos em conta a origem confessional e intimista dos blogs, mutações virtuais dos antigos diários. Para fundamentar minha tese e checar se há concordâncias, separei uma crônica curta – quase um post – retirada do livro A Descoberta do Mundo, reunião de crônicas assinadas por ela e publicadas aos sábados no Jornal do Brasil, entre 1967 e 1973:

“Já falei do perfume do jasmim? Já falei do cheiro do mar. A terra é perfumada. E eu me perfumo para intensificar o que sou. Por isso não posso usar perfumes que me contrariem. Perfumar-se é uma sabedoria instintiva. E como toda arte, exige algum conhecimento de si própria. Uso um perfume cujo nome não digo: é meu, sou eu. Duas amigas já me perguntaram o nome, eu disse, elas compraram. E deram-me de volta: simplesmente não eram delas. Não digo o nome também por segredo: é bom perfumar-se em segredo.”

 

O livro está recheado de textos curtos como este. Os temas – reflexões, confissões, impressões do cotidiano – nos aproximam e muito da escritora. Então, ela seria ou não uma ótima blogueira?

Por Raphaela de Campos Mello